Será que o ESG vai continuar sendo chamado de ESG? Ou estamos entrando em uma nova era, na qual a regeneração será o conceito que orientará as empresas, os profissionais e os negócios? Ou ainda teremos outro nome? Talvez Impacto Positivo?

Do ESG à regeneração: o futuro da sustentabilidade precisa de mais pessoas, inovação e impacto positivo
Foto: linkedin.com – reprodução

Essa pergunta tem me acompanhado nas aulas, palestras e conversas com profissionais de sustentabilidade. E duas reportagens recentes ajudam a ampliar essa reflexão: uma sobre o impacto do ESG nos grandes festivais e outra sobre a chegada de uma geração que espera das empresas compromissos mais consistentes com a sustentabilidade.

O que esses dois assuntos têm em comum? Ambos mostram que a sustentabilidade está deixando de ser uma atividade restrita aos departamentos especializados e passando a influenciar experiências, decisões de consumo, estratégias empresariais e escolhas profissionais.

Mais do que uma mudança de linguagem, estamos diante de uma oportunidade de transformar a maneira como geramos valor econômico, social e ambiental.

Além dos palcos: quando a sustentabilidade transforma experiências

A reportagem do Meio & Mensagem, intitulada “Além dos palcos: o impacto ESG nos festivais”, apresenta uma transformação interessante no setor de entretenimento.

Os grandes festivais estão se tornando plataformas de inovação em sustentabilidade, nas quais marcas, organizadores, fornecedores e público podem participar de iniciativas voltadas à redução dos impactos ambientais e à geração de benefícios sociais.

Um dos pontos destacados pela reportagem é que o desafio ambiental dos festivais vai muito além da gestão de resíduos. O deslocamento do público, por exemplo, representa uma parcela relevante das emissões e exige soluções de mobilidade coletiva, planejamento e colaboração entre diferentes organizações.

Isso abre espaço para uma série de oportunidades: transporte de baixo carbono, energia renovável, materiais circulares, acessibilidade, inclusão, gestão inteligente de recursos e novas tecnologias para mensurar impactos.

Imagine um festival que, além de proporcionar uma experiência cultural, contribua para recuperar áreas degradadas, fortalecer cooperativas, gerar renda para comunidades locais e desenvolver soluções que possam ser utilizadas posteriormente por outras empresas e cidades.

O evento deixa de ser apenas um consumidor de recursos e passa a ser um laboratório de inovação e impacto positivo.

É essa mudança de perspectiva que precisamos estimular em todos os setores da economia.

Uma nova geração está chegando. As empresas estão preparadas?

A reportagem do Jornal de Negócios, “A geração da sustentabilidade já chegou. Estão as empresas preparadas para a conquistar?”, provoca uma discussão igualmente importante: a relação entre sustentabilidade, novas gerações e o futuro das organizações.

A sustentabilidade pode ser um elemento importante na relação das empresas com consumidores, profissionais e futuros líderes.

Entretanto, não basta comunicar compromissos ambientais ou divulgar relatórios ESG. É necessário criar condições para que as pessoas participem efetivamente da transformação dos negócios.

Isso significa abrir espaço para novas ideias, desenvolver competências, estimular o empreendedorismo e permitir que os profissionais encontrem propósito em suas atividades.

Pense em um jovem que está escolhendo sua carreira. O que eu vivo no meu dia a dia aqui na faculdade e agora na minha vida com meus filhos.

Ele pode atuar na gestão de resíduos de um hospital, no desenvolvimento de embalagens circulares, na agricultura regenerativa, na análise de riscos climáticos de um banco ou na criação de tecnologias para melhorar a eficiência energética.

Todos esses caminhos podem contribuir para o desenvolvimento sustentável.

A sustentabilidade não é uma profissão única. É um campo de atuação que precisa estar presente em todas as profissões. É um profissional pelo desenvolvimento sustentável, o que trabalhamos fortemente na Abraps – Associação dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável.

Engenheiros, administradores, comunicadores, médicos, advogados, economistas, designers, cientistas de dados e tantos outros profissionais podem contribuir para desenvolver soluções que beneficiem simultaneamente os negócios, as pessoas e o meio ambiente. Sim cada um dentro dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, os ODS da ONU.

Precisamos mostrar às novas gerações que trabalhar com sustentabilidade não significa apenas administrar problemas. Significa também RESOLVER OS PROBLEMAS DO MUNDO, criar soluções, desenvolver tecnologias, transformar organizações e construir novas oportunidades econômicas.

O ESG vai mudar de nome? A regeneração está ganhando espaço

Nos últimos anos, o acrônimo ESG ganhou espaço no mercado financeiro e na gestão empresarial. Ela ajudou a organizar critérios ambientais, sociais e de governança, estimulando empresas a identificar riscos, estabelecer indicadores e incorporar essas dimensões às decisões estratégicas. Exatamente como um grande “check list” para podermos utilizar “dashboards” e metas para conseguirmos mensurar.

Entretanto, uma questão começa a ganhar força: será que reduzir impactos negativos é suficiente?

A Natura oferece um exemplo concreto dessa evolução conceitual.

Em sua Visão 2025–2050, a empresa estabeleceu a ambição de se tornar um negócio totalmente regenerativo até 2050, gerando impacto positivo para as pessoas, as comunidades e a natureza, ao mesmo tempo que desenvolve seus negócios.

A proposta considera quatro capitais: financeiro, humano, social e natural. A empresa também utiliza o iP&L, uma ferramenta que monetiza impactos socioambientais para apoiar sua gestão e acompanhar os resultados alcançados.

Essa abordagem representa uma mudança importante de mentalidade.

Enquanto a sustentabilidade tradicional frequentemente enfatiza a redução de danos, a regeneração propõe restaurar e fortalecer os sistemas naturais e sociais dos quais as organizações dependem.

Uma empresa pode reduzir seu consumo de água e, simultaneamente, investir na recuperação de bacias hidrográficas. Pode diminuir suas emissões e contribuir para restaurar ecossistemas. Pode gerar empregos e, além disso, fortalecer a autonomia econômica das comunidades que integram sua cadeia de valor. Isso gerar impacto positivo e gerar uma economia próspera de verdade.

A inovação está em incorporar esses objetivos ao próprio modelo de negócio, criando novas formas de produzir, consumir, investir e distribuir valor.

Mas será que a regeneração substituirá o ESG?

Não necessariamente.

O ESG continua sendo uma estrutura relevante para a gestão de riscos, a governança, a transparência e a avaliação do desempenho empresarial. Uma verdadeira ferramenta de gestão para a sustentabilidade e para buscar “dinheiro” mais barato com menos riscos.

A regeneração pode ampliar essa abordagem ao estabelecer uma ambição adicional: não apenas reduzir impactos negativos, mas contribuir para que os sistemas ambientais e sociais se tornem mais saudáveis, resilientes e capazes de prosperar. Um impacto que não seja somente arrumar o que está sujo ou bagunçado, mas sim começar a deixar assim para sempre. Não somente tapar feridas abertas com band aids mas sim começar a regenerar e não deixar mais as feridas se abrirem.

O importante não é simplesmente trocar um acrônimo por outro tema. É transformar a maneira como as organizações definem sucesso e mensuram seus resultados

A próxima grande inovação será medir quanto impacto positivo conseguimos gerar

O próximo desafio é avançar na mensuração do impacto positivo.

Quanto uma empresa contribui para restaurar a biodiversidade? Quanto valor econômico gera para as comunidades? Quanto melhora a qualidade de vida das pessoas? Como suas atividades fortalecem os sistemas naturais e sociais?

E, principalmente, como essas contribuições podem ser incorporadas às decisões de investimento, desenvolvimento de produtos e planejamento estratégico?

Acredito que precisamos avançar de uma lógica centrada exclusivamente na redução de impactos negativos para uma economia capaz de reconhecer, mensurar e ampliar os impactos positivos. E mais do que isso gerar lastro positivo!

Isso exige ciência, tecnologia, novos modelos de negócios, indicadores confiáveis e profissionais preparados para trabalhar de maneira interdisciplinar.

Também exige cuidado para que a regeneração não se transforme em uma nova expressão de marketing, sem mudanças efetivas nas operações e nos resultados das empresas.

A credibilidade dessa agenda dependerá de metas, evidências, transparência e capacidade de demonstrar benefícios concretos.

Precisamos de muito mais pessoas trabalhando com sustentabilidade!

Se queremos acelerar a transformação da economia, precisamos ampliar significativamente a participação das pessoas nesse processo.

A sustentabilidade não pode ficar restrita a um pequeno grupo de especialistas ou a uma área isolada dentro das organizações.

Precisamos de profissionais capazes de conectar tecnologia, finanças, inovação, comunicação, gestão de pessoas, políticas públicas e conhecimento ambiental.

Precisamos de professores que incorporem o desenvolvimento sustentável às suas disciplinas, de empreendedores que criem novos modelos de negócios e de lideranças que compreendam a relação entre competitividade e impacto socioambiental.

Também precisamos de empresas que ofereçam oportunidades de formação, contratação e desenvolvimento profissional para quem deseja atuar nessa área.

Não existe transformação sustentável sem pessoas preparadas para realizá-la.

E essa é uma das mensagens que procuro levar para meus alunos, profissionais e lideranças empresariais: não é necessário esperar uma oportunidade em um departamento de ESG para começar a trabalhar com sustentabilidade.

É possível transformar processos, produtos, serviços e decisões a partir de praticamente qualquer função dentro de uma organização.

O profissional de sustentabilidade do futuro pode estar em uma startup de tecnologia, em uma indústria, em um hospital, em uma cooperativa, em uma instituição financeira, em um festival de música ou em uma universidade.

O que importa é sua capacidade de conectar conhecimento, propósito, inovação e resultados.

E, para isso, precisamos de mais pessoas, mais conhecimento, mais inovação e mais oportunidades profissionais.

A pergunta que deixo é:

Você acredita que o ESG continuará sendo o principal termo utilizado pelas empresas ou que a regeneração será o próximo grande movimento da sustentabilidade? E como podemos atrair mais profissionais para participar dessa transformação?

Referências

1. Meio & Mensagem. Além dos palcos: o impacto ESG nos festivais .link

2. Jornal de Negócios. A geração da sustentabilidade já chegou. Estão as empresas preparadas para a conquistar? link

3. Natura. Visão 2025–2050: Caminhos para a Regeneração . link

4. Meio & Mensagem. Natura detalha visão de futuro com foco em regeneração até 2050 . link

Este artigo contou com apoio da Inteligência Artificial.

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Artigo publicado originalmente em linkedin.com.

Do ESG à regeneração: o futuro da sustentabilidade precisa de mais pessoas, inovação e impacto positivo